No skype com a
minha mãe, digo-lhe que a seguir vou ver um filme no portátil e daqui a
conversa resvala para os privilégios dos voluntários que vão colaborar em
projetos. Respondo, um pouco irritada que, apesar de não vivermos nas mesmas condições
que muitas das pessoas que aqui vivem, ainda estamos muito aquém do padrão de
vida europeu e que é sempre mais fácil apontar as condições de vida dos
voluntários que vão para África do que olhar para o nosso próprio nível de vida
na Europa e verificar o abismo que nos separa de um Africano.
Mas na verdade sei
que a minha mãe tem razão. Eu venho trabalhar como voluntária para um país
pobre e tenho privilégios (que aceito!) que me deixam envergonhada:
- Recebo um
subsídio para alimentação que quase nunca me chega até ao final do mês, mas que
é mais elevado que alguns míseros ordenados;
- Vivo numa casa
com cozinha e casa de banho, quando a maioria das casas da vizinhança tem um
forno de lenha à porta e uma fossa nas traseiras;
- Temos água
canalizada e eletricidade, ao contrário de muita gente;
- Não temos
aspirador nem máquina de lavar roupa, mas temos uma senhora que vem todos os
dias limpar-nos a casa e lavar-nos a roupa.
- Se estamos
doentes, levam-nos na carrinha do projeto a uma clínica para fazer o despiste
da malária, onde esperamos meia hora numa salinha com ar condicionado. A maior
parte das pessoas aqui, tem que andar a pé baixo um sol abrasador, apanhar o
“chapa” e levar com braços, pernas e gritos das trinta ou mais pessoas com quem
partilha a caixa aberta duma carrinha, para então chegar ao hospital e esperar
horas para ser atendido… e olhem que a malária já é dificilíssima de suportar
nas melhores condições.
Esta é a realidade!


