quarta-feira, 30 de abril de 2014

Coisas bonitas...


Desci à praia, como faço tantas vezes desde que aqui cheguei e, também como tantas outras vezes, encontro um grupo de rapazes a brincar dentro de água. São miúdos da praia, do mar, filhos de pescadores. As mães geralmente trabalham nas machambas ou a apanhar marisco. São famílias muito humildes. Praticamente todos estes miúdos trabalham no mar e muitos deles não andam na escola (sei-o porque não falam português).

Geralmente acenam-me a mão quando chego à praia, e dizem qualquer coisa em macua que não consigo descodificar.

Hoje um deles estava a vender “doces”, uma espécie de bolo feito de açúcar e amendoim ou coco que é vendido em pequenos pedaços a menos de 1 cêntimo cada. Eu raramente levo carteira para a praia, mas desta vez trouxe-a comigo. Peço-lhe para esperar enquanto verifico se tenho moedas… Nada! Diz-me que não tem troco para a minha nota e que vai tentar arranjar. Quando volta do seu circuito na praia senta-se com os amigos na areia, debaixo de uma árvore. Vou ter com ele, pergunto-lhe se já tem troco e diz-me que não. Encolho os ombros com pena e volto para o meu lugar. 

Minutos depois aproxima-se com um amigo, este estende-me a mão com dois doces. Não percebi e digo outra vez:
- Mas eu não tenho troco.
Responde-me o dono dos doces pelo amigo, que não falava português:
- Ele comprou para você!
Fiquei tão enternecida, uma emoção estranha, até com um bocadinho de vontade de chorar. Quis ficar com um e dar-lhe o outro, mas ele não aceitou. Respondeu-me em macua mas eu percebi perfeitamente:
- Estes são para si!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Muzuane



Todos os dias o G e eu cruzamos o bairro de Muzuane a pé, o que nos leva entre trinta a quarenta minutos. Já todos nos conhecem e é um festival de crianças a correr para nós e a gritar “tatá” (até logo).
Há um miúdo muito pequenino que encontramos sempre no início do nosso percurso de ida e que é uma delícia! Quando nos vê ao longe começa aos saltos a gritar “acunha” com um entusiasmo incrível, como se fossemos o acontecimento mais importante do dia… e se calhar somos!
A alegria destas crianças, pelo simples facto de dois brancos passarem, sorrirem, darem a mão, uma festinha ou uma palavra, é impressionante! Suponho que seja porque os brancos estão sempre dentro de carros ou dentro da televisão…

sábado, 12 de abril de 2014

M'cunha

A palavra “m’cunha” significa branco, ou “acunha” brancos, e sempre achei que havia algo de agressivo nela, não sei se da palavra em si, se da forma como é pronunciada quando nos chamam. Geralmente retifico as crianças dizendo que me chamo Marina e não M’cunha.

No outro dia, ao chegar à escolinha do bairro de Naherengue, as crianças levantaram-se a bater palmas e a gritar: MM-CU-NHA, MM-CU-NHA… e tinham uma alegria na cara, e pronunciavam a palavra com uma doçura tal, que eu pensei: se calhar a agressividade está na minha cabeça!

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Despertar


Acordo todos os dias entre as 5h30 e as 6h com os cantos dos pescadores que estão a entrar no mar. É o toque de despertar mais lindo que já tive na vida!!!

terça-feira, 8 de abril de 2014

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Alguém me explica como é que se aplicam metodologias pedagógicas a turmas assim?

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Emoções...


Há dias que acordamos mais tristes para a vida (ou com ela) por uma qualquer razão, ou por aquela razão, ou aparentemente por nenhuma. Hoje acordei assim, e assim fui a caminho de uma das escolinhas. 

No início da caminhada uma criança corre atrás de mim e dá-me a mão, quer ir comigo para a escolinha. A mãe grita: A Marina e a Catarina! … e eu olho para a Catarina, pequenina nos seus 3 ou 4 aninhos, suja de terra e descalça, com um sorriso enorme na cara porque vai para a escolinha de mão dada comigo; e eu sinto uma felicidade tão doce, uma felicidade quase triste, mas totalmente diferente da tristeza que tinha e que esqueci naquele momento…

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Pescadores



Desci à praia na hora do almoço. Fui “convidada” a sair da água por uma rede de pesca que se acercava e que me cercava por todos os lados. Aceitei o convite e fui ajudar o grupo de pescadores a puxá-la…