Aquela mensagem tão famosa no facebook relativa
ao pessoal que nasceu antes ou durante os anos 80, faz-me pensar o quão pouco
sabemos, ou queremos saber, acerca do mundo para além do nosso.
As panelas são valiosos instrumentos de
trabalho, não servem para brincar. Aqui brinca-se com tampinhas, garrafas e
metais encontrados no chão.
É muito rara a criança que tem bicicleta, e não
se veem capacetes nem nas crianças que são levadas na moto com os pais.
Aqui viaja-se de pé, na caixa de uma carrinha
aberta com muita, mesmo muita, gente. Por mais de uma vez vi pessoas a cair, tipo
dominó, em cima de bebés que iam nos colos das suas mães.
Vende-se água em garrafas, tal como refrigerantes, mas a maioria das crianças bebe água da torneira muitas vezes não potável, e já vi algumas a sorver do chão o refrigerante que caiu da garrafa de alguém.
Estas crianças não comem
batatas fritas, comem, aliás, pouco mais do que milho e mandioca. O pão, quando
há, não leva manteiga.
Aqui bebe-se do mesmo copo e
come-se do mesmo prato e, às vezes, morre-se disso.
As crianças não brincam o
dia todo, muitas nem sequer vão à escola, porque têm que trabalhar na machamba,
ou no mar, ou em casa, ou têm que ir para o mercado vender, ou têm litros de água
para carregar.
A grande maioria das casas
não tem televisão, mas há sempre alguém no bairro com uma, virada para a porta
de entrada, para que os vizinhos possam sentar-se cá fora, no chão, a ver.
As crianças não se magoam
apenas a cair de árvores, mas também devido a acidentes de trabalho ou de
viação, que são bastante frequentes. Quando isso acontece, não há ambulâncias,
espera-se que passe um carro, cujo condutor tenha a boa vontade de recolher os
feridos e levá-los ao hospital.
Aqui anda-se km a pé, faça
chuva ou faça sol, para ir a casa do amigo, ou para ir à escola, ou para ir
para a manchamba, praia ou mercado trabalhar… E geralmente estas crianças
fazem-no carregando muito peso na cabeça.
Os jogos e brinquedos são
criados na rua, com o lixo apanhado do chão.
O conceito de “pais que
safam da chatice” não existe, as crianças lidam sozinhas com todas as situações
ao longo do dia. Raramente se queixam, mesmo quando estão doentes (e às vezes estão
muito doentes).
Estas crianças são, para
mim, umas super-crianças sendo, no entanto, tão pouco crianças.






