domingo, 26 de janeiro de 2014

Culturas...


Há um grupo de quatro jovens da comunidade ao lado das instalações do HQ com quem os nossos colegas e amigos do CICD que trabalham aqui se relacionam muito e nós, por inerência, também. São dois rapazes e duas raparigas inteligentes, bem dispostos e interessados com quem temos passado alguns finais de tarde, depois de terminada a escola. Hoje, domingo, quiseram acompanhar-nos ao centro da cidade, onde fomos tratar de arranjar as máquinas que resolveram avariar nesta última semana (no meu caso, a câmara fotográfica). Depois de passarmos umas boas horas entre câmaras e computadores, a comprar comida e a passear pela cidade, decidimos voltar a casa. Nesse exato momento cai uma boa carga de água e abrigamo-nos debaixo de um alpendre. Entre cantigas, danças e tranças, surgem conversas, e uma delas foi acerca do casamento. As nossas realidades culturais são tão distintas, tão distantes. Depois de nos explicarem da aceitação natural da poligamia na Zambia, ficam chocadíssimos quando lhes falamos do matrimónio entre duas pessoas do mesmo sexo.

Miúdo de rua

Hoje passámos por um miúdo de rua, como tantos outros pelos quais passamos todos os dias… Pediu-nos dinheiro e eu, como tenho a convicção de que dar dinheiro não contribui em nada para melhorar a sua situação familiar, não dou. Depois de falarmos um pouco com ele percebemos que está completamente sozinho, que a mãe vive em Lusaka (a mais de 300 Km de distância) e ele veio para Ndola e dorme na rua. Tem cerca de 12 anos esta criança e eu já não tenho convicções nenhumas.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Kantolomba


Às 8h estávamos, G. e eu, à porta da HOPE para visitar clínicas e escolas de diferentes bairros, ou comunidades como eles lhes chamam. Depois de esperarmos cerca de 1h, nenhum dos dois percebeu porquê, caminhámos meia hora acompanhados pelos dois “field officers” até ao ponto onde apanhámos um táxi para depois apanharmos um minibus. Ao cabo de 2 horas estávamos na primeira clínica, a de Itawa, para organizar a formação de um novo grupo de “TB Supporters”. Era um bloco de prédios muito ao estilo de habitação social europeu, com uma clínica (centro de saúde) pequena e discreta perdida no meio dos edifícios. Os TB Supporters são pessoas da comunidade que se oferecem como voluntários para dar apoio nas ações de prevenção da Tuberculose e HIV, estas ações são coordenadas pelo centro de saúde local com o apoio e supervisão da HOPE Humana.

A segunda visita, foi a que mais me marcou, pelo impacto visual, olfativo e emocional. Kantolomba é o bairro mais pobre que visitei até à data ou, pelo menos, essa é a minha perceção. Passámos primeiro por uma escola primária que está situada antes da entrada da comunidade propriamente dita. Uma escola bonita, limpa, com boas condições. Mwansa, um dos “field officers” que nos acompanha, é natural desta comunidade e tem um dos irmãos a trabalhar aqui. Explica-me que esta escola tem a participação financeira de uma Organização Canadense e destina-se a crianças vulneráveis (ou às de maior vulnerabilidade porque, como vim a confirmar, nesta comunidade vulneráveis são todas). Entramos na comunidade e, à medida que penetramos nela, penetra-se também no olfato um cheiro quente e doce a sujidade, aumenta a quantidade de lixo que se pode ver espalhado no chão de terra batida, são mais e mais as crianças sujas (muito sujas) que encontramos no caminho. Eu não passo despercebida! Muita gente vem ter comigo para apertar a mão e, mesmo a propósito, pedir dinheiro ou comida. As crianças olham, riem-se e algumas atrevem-se a chegar perto, tocar-me e acompanhar-me no caminho até à escola comunitária. Esta é uma escola mais pobre que a anterior, mas que também funciona com financiamentos de diferentes ONG’s. Visitamos cada sala (são apenas 3) para falar um pouco com os alunos. À entrada do recinto aparecem crianças de roupa rasgada que espreitam, riem e correm. Pergunto se são alunos dos turnos da tarde (se bem que tinha reparado que os alunos nas salas estão limpos e usam uniforme escolar) e a professora responde que estes não frequentam esta escola, mas sim a pública… No caminho de volta tento perceber como funciona tudo isto, junto do Mwansa:
- Na Zâmbia existem as escolas comunitárias e as públicas. As comunitárias selecionam as crianças das famílias mais pobres do bairro com base nos rendimentos do agregado familiar. Para frequentar a escola pública os pais da criança têm que pagar uma taxa, para além dos gastos com o uniforme escolar.
- Então os pais das crianças que espreitavam à porta da escola comunitária têm dinheiro para as pôr na escola - pergunto sem perceber porque é que estas pareciam ainda mais pobres.
- Supostamente sim, mas muitos preferem gastar em bebida, em vez de tratarem delas com comida, roupa e escola.
- Então não vão à escola?
- A maioria das que vimos, não!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Chuvas



Aqui o conceito de chuva “molha-parvos” não existe, esta molha tudo e todos em apenas 1 segundo. Literalmente!!!
Esta manhã fomos visitar a prisão de Ndola, onde será implementado um grupo de suporte para prevenção de TB (Tuberculose). Esta tarde, era suposto visitarmos uma comunidade mas a chuva impediu-nos…

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ndola






Chegamos a Ndola, onde está o Head Quarter da Humana, ou DAPP (Development Aid People to People), na Zambia. Aqui reencontramos bons amigos do CICD, que nos acolhem nos seus quartos por uma semana. Os aposentos estão junto às instalações do HQ e as condições, comparadas com o que temos tido nos últimos tempos, são “luxuosas”. Eletricidade, água e internet sem limite, acesso à cozinha e duches, de água fria, mas corrente! Passámos um fim-de-semana de descanso e reconhecimento da área. Ndola é uma cidade relativamente grande e, à semelhança de Francistown no Bots, bastante europeizada, onde encontramos, para além dos típicos mercados coloridos, pessoas bem arranjadas e descobrimos lojas “fashion” e restaurantes pelo centro. 

Ontem visitámos a comunidade daqui, ao lado do HQ. É um mundo à parte que, apesar de pertencer à cidade, parece estar a muitos km de distância. São casas no meio do mato, feitas de madeira e barro, ao longo de caminhos de terra batida. São crianças descalças e mães (muitas mães) adolescentes que nos vêm pedir comida ou dinheiro para os filhos que levam pendurados nas costas e agarrados às chitangas. Decidimos participar nas ações da HOPE, o projeto da DAPP  que trabalha junto destas comunidades na prevenção do HIV e noutros tópicos a nível sanitário. Amanhã começamos!
 




quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Deixo este sítio...

... com o coração cheio, mas ao mesmo tempo com um vazio… O vazio de não ficar mais tempo, de não ter oportunidade de conhecer melhor estas crianças fantásticas que aqui vivem, o vazio de não as poder trazer comigo ou de não poder ficar o resto da minha vida aqui, com elas… Elas, que não conhecem o amor dos seus pais, e têm um amor tão puro para dar. Adoro-as!

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

'*.*


Escrevemos uma estória em Bemba, que depois foi traduzida por eles… Começava assim:
“Paliakatuse, pali kalulu na sofu  so noba efo  ba  kalulu  bacimbwi  baile mumpanga”
“Era uma vez um coelho e um elefante que viram uma hiena no mato”

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Children Town


O espaço da Children Town é enorme, e os edifícios estão bastante distanciados. Os dormitórios das raparigas, onde estamos instalados, ficam a cerca de 700 metros do edifício da escola. Pelo caminho passamos pela pré-escola, pela escola profissional, pela horta, pelas instalações onde estão alojados alguns professores e outros funcionários e pelo centro comunitário.
Tal como no Frontline, a falta de electricidade significa também falta de água (bomba eléctrica). Desde que chegámos que não temos luz e a água temos que a recolher de uma nora que está sensivelmente perto do nosso quarto, a cerca de 200 metros. Na noite em que chegámos, A. e eu fomos de alguidar na mão rumo à nora, buscar água para o nosso “duche” de balde. O caminho de ida foi uma aventura, a de evitar possas de lama no meio de uma escuridão total, o de volta foi uma risada, com os alguidares na cabeça, porque assim não se perde água (supostamente para nós, efectivamente para os africanos). A A., na frente, com um desempenho magnífico, não tivesse ela sangue africano nas veias, eu atrás com um ataque de riso, com a água a cair-me na cara e a entrar-me pelo nariz, sem conseguir evitar uma única possa de água. Foi a forma mais divertida de terminar um dia tão cansativo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não sei se...


... de um vírus, do cansaço, do humor ou do amor, a verdade é que me sinto prostrada… Passei o dia na cama sem energia sequer para comer.