quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Kantolomba


Às 8h estávamos, G. e eu, à porta da HOPE para visitar clínicas e escolas de diferentes bairros, ou comunidades como eles lhes chamam. Depois de esperarmos cerca de 1h, nenhum dos dois percebeu porquê, caminhámos meia hora acompanhados pelos dois “field officers” até ao ponto onde apanhámos um táxi para depois apanharmos um minibus. Ao cabo de 2 horas estávamos na primeira clínica, a de Itawa, para organizar a formação de um novo grupo de “TB Supporters”. Era um bloco de prédios muito ao estilo de habitação social europeu, com uma clínica (centro de saúde) pequena e discreta perdida no meio dos edifícios. Os TB Supporters são pessoas da comunidade que se oferecem como voluntários para dar apoio nas ações de prevenção da Tuberculose e HIV, estas ações são coordenadas pelo centro de saúde local com o apoio e supervisão da HOPE Humana.

A segunda visita, foi a que mais me marcou, pelo impacto visual, olfativo e emocional. Kantolomba é o bairro mais pobre que visitei até à data ou, pelo menos, essa é a minha perceção. Passámos primeiro por uma escola primária que está situada antes da entrada da comunidade propriamente dita. Uma escola bonita, limpa, com boas condições. Mwansa, um dos “field officers” que nos acompanha, é natural desta comunidade e tem um dos irmãos a trabalhar aqui. Explica-me que esta escola tem a participação financeira de uma Organização Canadense e destina-se a crianças vulneráveis (ou às de maior vulnerabilidade porque, como vim a confirmar, nesta comunidade vulneráveis são todas). Entramos na comunidade e, à medida que penetramos nela, penetra-se também no olfato um cheiro quente e doce a sujidade, aumenta a quantidade de lixo que se pode ver espalhado no chão de terra batida, são mais e mais as crianças sujas (muito sujas) que encontramos no caminho. Eu não passo despercebida! Muita gente vem ter comigo para apertar a mão e, mesmo a propósito, pedir dinheiro ou comida. As crianças olham, riem-se e algumas atrevem-se a chegar perto, tocar-me e acompanhar-me no caminho até à escola comunitária. Esta é uma escola mais pobre que a anterior, mas que também funciona com financiamentos de diferentes ONG’s. Visitamos cada sala (são apenas 3) para falar um pouco com os alunos. À entrada do recinto aparecem crianças de roupa rasgada que espreitam, riem e correm. Pergunto se são alunos dos turnos da tarde (se bem que tinha reparado que os alunos nas salas estão limpos e usam uniforme escolar) e a professora responde que estes não frequentam esta escola, mas sim a pública… No caminho de volta tento perceber como funciona tudo isto, junto do Mwansa:
- Na Zâmbia existem as escolas comunitárias e as públicas. As comunitárias selecionam as crianças das famílias mais pobres do bairro com base nos rendimentos do agregado familiar. Para frequentar a escola pública os pais da criança têm que pagar uma taxa, para além dos gastos com o uniforme escolar.
- Então os pais das crianças que espreitavam à porta da escola comunitária têm dinheiro para as pôr na escola - pergunto sem perceber porque é que estas pareciam ainda mais pobres.
- Supostamente sim, mas muitos preferem gastar em bebida, em vez de tratarem delas com comida, roupa e escola.
- Então não vão à escola?
- A maioria das que vimos, não!

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