
Às 8h estávamos, G. e eu, à porta
da HOPE para visitar clínicas e escolas de diferentes bairros, ou comunidades
como eles lhes chamam. Depois de esperarmos cerca de 1h, nenhum dos dois
percebeu porquê, caminhámos meia hora acompanhados pelos dois “field officers” até
ao ponto onde apanhámos um táxi para depois apanharmos um minibus. Ao cabo de 2
horas estávamos na primeira clínica, a de Itawa, para organizar a formação de
um novo grupo de “TB Supporters”. Era um bloco de prédios muito ao estilo de habitação
social europeu, com uma clínica (centro de saúde) pequena e discreta perdida no
meio dos edifícios. Os TB Supporters são pessoas da comunidade que se oferecem
como voluntários para dar apoio nas ações de prevenção da Tuberculose e HIV,
estas ações são coordenadas pelo centro de saúde local com o apoio e supervisão
da HOPE Humana.

A segunda visita, foi a que mais
me marcou, pelo impacto visual, olfativo e emocional. Kantolomba é o bairro mais
pobre que visitei até à data ou, pelo menos, essa é a minha perceção. Passámos primeiro
por uma escola primária que está situada antes da entrada da comunidade
propriamente dita. Uma escola bonita, limpa, com boas condições. Mwansa, um dos
“field officers” que nos acompanha, é natural desta comunidade e tem um dos
irmãos a trabalhar aqui. Explica-me que esta escola tem a participação
financeira de uma Organização Canadense e destina-se a crianças vulneráveis (ou
às de maior vulnerabilidade porque, como vim a confirmar, nesta comunidade
vulneráveis são todas). Entramos na comunidade e, à medida que penetramos nela,
penetra-se também no olfato um cheiro quente e doce a sujidade, aumenta a
quantidade de lixo que se pode ver espalhado no chão de terra batida, são mais
e mais as crianças sujas (muito sujas) que encontramos no caminho. Eu não passo
despercebida! Muita gente vem ter comigo para apertar a mão e, mesmo a
propósito, pedir dinheiro ou comida. As crianças olham, riem-se e algumas
atrevem-se a chegar perto, tocar-me e acompanhar-me no caminho até à escola
comunitária. Esta é uma escola mais pobre que a anterior, mas que também funciona
com financiamentos de diferentes ONG’s. Visitamos cada sala (são apenas 3) para
falar um pouco com os alunos. À entrada do recinto aparecem crianças de roupa
rasgada que espreitam, riem e correm. Pergunto se são alunos dos turnos da
tarde (se bem que tinha reparado que os alunos nas salas estão limpos e usam uniforme
escolar) e a professora responde que estes não frequentam esta escola, mas sim
a pública… No caminho de volta tento perceber como funciona tudo isto, junto do
Mwansa:

- Na Zâmbia existem as escolas
comunitárias e as públicas. As comunitárias selecionam as crianças das famílias
mais pobres do bairro com base nos rendimentos do agregado familiar. Para
frequentar a escola pública os pais da criança têm que pagar uma taxa, para
além dos gastos com o uniforme escolar.
- Então os pais das crianças que
espreitavam à porta da escola comunitária têm dinheiro para as pôr na escola -
pergunto sem perceber porque é que estas pareciam ainda mais pobres.
- Supostamente sim, mas muitos
preferem gastar em bebida, em vez de tratarem delas com comida, roupa e escola.
- Então não vão à escola?
- A maioria das que vimos, não!
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