terça-feira, 24 de junho de 2014

Mundo para além do nosso


Aquela mensagem tão famosa no facebook relativa ao pessoal que nasceu antes ou durante os anos 80, faz-me pensar o quão pouco sabemos, ou queremos saber, acerca do mundo para além do nosso.


Aqui, no bairro onde vivo, não existem frascos de medicamentos, muito menos com tampas à prova de crianças. Estes vendem-se avulso e, dificilmente, sobra algum que possa pôr em perigo a vida de uma criança. O perigo está na sua falta!


As panelas são valiosos instrumentos de trabalho, não servem para brincar. Aqui brinca-se com tampinhas, garrafas e metais encontrados no chão.


É muito rara a criança que tem bicicleta, e não se veem capacetes nem nas crianças que são levadas na moto com os pais.


Aqui viaja-se de pé, na caixa de uma carrinha aberta com muita, mesmo muita, gente. Por mais de uma vez vi pessoas a cair, tipo dominó, em cima de bebés que iam nos colos das suas mães.

Vende-se água em garrafas, tal como refrigerantes, mas a maioria das crianças bebe água da torneira muitas vezes não potável, e já vi algumas a sorver do chão o refrigerante que caiu da garrafa de alguém.

Estas crianças não comem batatas fritas, comem, aliás, pouco mais do que milho e mandioca. O pão, quando há, não leva manteiga.

Aqui bebe-se do mesmo copo e come-se do mesmo prato e, às vezes, morre-se disso.

As crianças não brincam o dia todo, muitas nem sequer vão à escola, porque têm que trabalhar na machamba, ou no mar, ou em casa, ou têm que ir para o mercado vender, ou têm litros de água para carregar.

A grande maioria das casas não tem televisão, mas há sempre alguém no bairro com uma, virada para a porta de entrada, para que os vizinhos possam sentar-se cá fora, no chão, a ver.

As crianças não se magoam apenas a cair de árvores, mas também devido a acidentes de trabalho ou de viação, que são bastante frequentes. Quando isso acontece, não há ambulâncias, espera-se que passe um carro, cujo condutor tenha a boa vontade de recolher os feridos e levá-los ao hospital.

Aqui anda-se km a pé, faça chuva ou faça sol, para ir a casa do amigo, ou para ir à escola, ou para ir para a manchamba, praia ou mercado trabalhar… E geralmente estas crianças fazem-no carregando muito peso na cabeça.

Os jogos e brinquedos são criados na rua, com o lixo apanhado do chão.

O conceito de “pais que safam da chatice” não existe, as crianças lidam sozinhas com todas as situações ao longo do dia. Raramente se queixam, mesmo quando estão doentes (e às vezes estão muito doentes).

Estas crianças são, para mim, umas super-crianças sendo, no entanto, tão pouco crianças.








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