Se o
primeiro foi difícil pelo calor, seguramente o dia mais quente desde que
chegámos a África, o segundo foi infernal pela chuva, lama e confusão.

Chegados de Livingston a Lusaka,
depois de uma viagem quente mas tranquila, ligámos ao Enoch para nos dar
indicação de como ir para a Children Town em Chitanda. Diz-nos para apanhar um
mini-bus numa estação diferente da que sempre temos usado. No dia seguinte,
quando dizemos ao taxista qual a estação que queremos ir, este franze-nos o
nariz. No caminho pergunta-nos porquê aquela estação, que não é muito segura,
que os mini-buses não são oficiais e que costumam ter muitos acidentes.
Explicamos que foi a indicação de um amigo para ir para Chitanda e responde-nos
que não percebe, que na estação oficial também partem autocarros (a sério) com
bastante frequência e muito mais seguros para este destino. Decidimos seguir o
seu conselho e embarcamos no “mini” autocarro oficial. Depois de pagarmos um
extra pelas voltas do taxista e outro pela bagagem que levamos no autocarro
oficial, ligamos para Levi, o nosso amigo da Children Town, e apercebemo-nos o
porquê da indicação do Enoch: este autocarro não passa na zona onde queremos
ficar! Passamos o telefone ao motorista e este acorda com o Levi em deixar-nos
numa outra paragem no caminho.
E então, começa a confusão! Ao
chegar à dita paragem, que não é mais do que uma esquina com uma árvore debaixo
da qual está uma carrinha de caixa aberta cheia de gente, alguém (que não
sabemos quem) retira as nossas bagagens, todos falam em Bemba ou outro dos muitos
dialectos locais, e começam a descarregar as malas na carrinha. Não percebemos
nada, nem tivemos tempo de reagir, quando demos por nós estávamos os quatro a
entrar para a caixa de uma carrinha que há muito que esgotou a lotação. Espremida
no meio das pessoas, sem saber onde me colocar, reparo numa miúda que se
encolhe num canto e me abre o braço para que me sente ao seu lado. Pergunto-lhe
o nome, Regina, e conto-lhe que no meu país há um chocolate com o seu nome que
eu gostava muito quando tinha a sua idade. Sorri-me com um brilho no olhar,
pergunta-me pelo meu país, por mim, porque estou ali e para onde vou. Diz-me
que no caminho me mostra qual é a sua casa, onde vive com a avó, que também vem
na carrinha, sentada no outro lado da caixa. Cai uma chuva torrencial, Regina e
a outra vizinha de assento depressa me cobrem a cabeça com as chitangas (panos)
que têm, o que de nada serve, porque não são impermeáveis. O carro avaria nos
primeiros 500 metros, a chuva é muita, o frio molhado na pele e nos ossos,
também. Aparece uma carrinha fechada e as nossas malas são as primeiras a ser
transportadas, mais uma vez sem sabermos por quem e sem que nos perguntassem
nada, para dentro deste “mini-bus”. Cheios de lama e molhados, entramos aos
tropeções para esta carrinha. Olho pela janela e vejo Regina e a avó sentadas
na caixa aberta, com uma manta ensopada a cobrir-lhes o corpo. Ficaram para
trás, já não apanharam lugar no carro. Aceno um adeus triste, mas ela não me
vê.

Na “nova” carrinha voltamos para
trás, sem perceber porquê. Param na mesma paragem (árvore) inicial. Dizem-nos
para sair e depois para voltar a entrar… e a nossa preocupação sempre com as
malas. Param numa loja de estrada, julgo que para pôr combustível, e retrocedem
para o caminho inicial. Voltamos a passar por Regina e a avó, que continuam na
caixa aberta do carro cobertas pela mesma manta, agora ainda mais ensopada.
Penso que poderia dar-lhes o meu impermeável, pela janela, se a carrinha
abrandasse… A carrinha passa veloz e eu olho para trás pela janela com o
impermeável na mão. Parou sim, muitos km à frente de forma inesperada. Mais uma
vez sem se darem ao trabalho de nos explicar nada (pelo menos em inglês), o
motorista e o companheiro saem do carro e começam a caminhar pela estrada fora,
deixando-nos no carro, ali… Às nossas expressões de estupefação reagiu um dos passageiros,
que nos explicou que o combustível acabou e que os donos da carrinha iam à
comunidade mais próxima buscar gasolina.
Mas isto foi já depois de andarmos
às cabeçadas (literalmente) uns com os outros pela condução do motorista numa
estrada tortuosa, esburacada e enlameada, cujas possas de água se assemelham a
pequenos lagos, num carro onde cabe sempre mais um, que tanto pode ser uma
pessoa como uma galinha ou uma cabra.
Chegámos a Children Town de noite, cansados e
saturados, mas com a receção mais simpática e acolhedora do mundo!
Que grande aventura!
ResponderEliminarE o calor em África, afinal é um mito? :)
Beijinhos
Mito nenhum. Faz muito calor!!! Mas também faz frio ;)
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