Comprometemo-nos com o Frontline
Institute em participar na acção “Tree Planting” que decorrerá no período do
Natal. Estava inicialmente previsto partir para o Botswana no dia imediatamente
a seguir à nossa chegada ao Zimbabwe (na realidade, só não voámos directamente
para Gaborone, Bots porque os preços dos voos eram elevadíssimos). No entanto,
problemas com vistos atrapalharam os nossos planos e só no dia 6 pudemos
viajar.

Desde que chegámos a Zimb, temos
vivido num ambiente protegido e mais que amigável dentro da escola. O impacto
quando nos encontrámos sozinhos em Harare foi, para mim, bastante forte. As
pessoas atropelam-se para chegar a nós e vender o que têm para vender, seja
comida, bebida, transporte ou dinheiro… Senti agressividade na forma como nos
olham, como nos abordam… Senti algum medo.
Depois do motorista da Humana nos
deixar em frente à embaixada do Malawi, que resultou estar fechada, apanhámos
um combi (carrinhas utilizadas como táxis, onde cabe sempre mais um, pelo que vamos
como sardinhas em lata) e caminhámos perdidos pelo centro. Três brancos e uma
mulata, carregados com mochilas enormes não passam despercebidos. Enquanto A.
nos dizia “não façam ar de turistas” nós ríamos com os nervos e fomos abordados
por comerciantes, taxistas e sei lá mas quem, nem sempre da forma mais
agradável.

Quando chegámos à estação de
autocarros que o motorista da Humana nos tinha referenciado, apercebemo-nos que
o nosso parte de outra estação. Há, literalmente, milhares de pessoas por todo
o lado, muitos gesticulam e gritam por nós para entrarmos no seu táxi ou combi.
Entramos e pedimos ajuda à rapariga das informações que pergunta pelo nosso
guia, que se não temos devemos arranjar um, que não é seguro andarmos sozinhos.
Explicamos que não estamos a visitar a cidade, apenas queremos apanhar o
transporte para Francistown. Então que apanhemos um táxi e que nos
certifiquemos que o taxista é credenciado.
Lá fora o caos! Depois de sermos
abordados de uma forma que nem nos dá espaço para pensar, aparece um senhor com
um colete onde está escrito “táxi” e decidimos ir com ele. Em conversa diz-nos
que conhece a Humana e o Frontline Institute. Leva-nos a um minimercado porque
comentámos que queríamos comprar comida, passa connosco no ponto de partida do
nosso autocarro (mega confusão) e confirma que este só parte às 18h. Não são
ainda 10h da manhã. Então leva-nos a uma estação de serviço, num sítio
tranquilo, onde o nosso autocarro está estacionado esperando a hora da partida.
Procuramos o motorista, pedimos para deixar as mochilas e sacos dentro do
autocarro e sentimo-nos à vontade para entrar e sair da viatura sempre que
quisermos. Despedimo-nos de Anton, o taxista que tanto nos ajudou, e ficamos
com o seu contacto para quando voltarmos.

Então ali, nesta comunidade de
Harare cujo nome desconheço, passámos umas horas mágicas com os miúdos do
bairro. Tudo começou com uma bolacha que demos a uma criança, logo

a seguir apareceu
mais uma e depois outra e outra… Fomos dar uma volta pelo bairro e elas vieram
connosco. No caminho juntaram-se mais miúdos ao grupo. Mostraram-nos o centro
de saúde e a escola, apresentada por um deles como “a melhor escola do mundo”.
Cantámos, dançámos e trocámos jogos das nossas tão diferentes infâncias,
inventámos brincadeiras e rimos muito. Estas horas foram tão especiais que não tenho
como pôr em palavras… e acho que esta sensação foi partilhada por todos. Alguns
despediram-se com um “I will never forget you” e todos rodearam o autocarro,
connosco lá dentro, a cantar a canção que lhes ensinámos. Há forma mais bonita
demonstrar afecto?

Saímos da estação de gasolina e
parámos na paragem oficial, a caótica. Enquanto esperamos que cheguem mais
passageiros somos invadidos por todo o tipo de comerciantes. No autocarro
entraram dezenas de pessoas a vender comida, bebida, bolsas e carteiras,
carregadores de telemóvel, cartões SIM, dinheiro para câmbio e mais mil e uma
coisas. Depois de quase uma hora neste entra e sai, finalmente partimos para
Francistown. O autocarro era bastante velho e enorme. Levava muito mais gente
do que a sua capacidade. As pessoas sentavam-se no chão, amontoadas até quase
em cima do motorista.
Alta madrugada e paramos no meio
da estrada, ou melhor, no meio do mato por uma avaria do autocarro. O condutor
e ajudantes (não percebi se funcionários do autocarro) mandam sair as pessoas
sentadas no chão para abrir o motor. Parte do chão é, na verdade, a porta que
dá acesso ao motor. Depois de algumas tentativas falhadas, voltam a fechar o
motor, as pessoas voltam para dentro. Estivemos cerca de duas horas esperando,
mas ninguém sabia o quê. Pára à nossa frente um autocarro igual ao nosso e as
pessoas começam a falar em Shona, a levantar-se do chão e a correr para a rua.
Nós os quatro não percebíamos nada… Vamos trocar de autocarro? Só então
percebemos que o autocarro nos trazia gasóleo e óleo, e que afinal continuamos
no mesmo, que conseguiu funcionar até à vila mais próxima para parar de vez.

Mais caos! Fila para a devolução
do dinheiro correspondente ao trajecto em falta. Juntamo-nos em grupos e
procuramos um táxi que nos leva à cidade mais próxima, onde queremos apanhar um
“bus” (que não passa de uma carrinha um pouco maior que um combi) em direcção à
fronteira. Mal o táxi nos larga na paragem do bus, discussão brutal entre os
condutores! Queremos ir no bus e não num combi, mas o pessoal dos combis barra-nos
a passagem. Um de nós consegue transpor a barreira e chegar ao bus, mas
entretanto o motorista do bus arranca furioso connosco cá fora e uma mochila lá
dentro. Gritos por todo o lado, eu sem perceber nada… Entretanto o bus para
numa esquina e nós corremos para o apanhar. Ufff!!

Chegámos à fronteira, cruzámos
sem problemas e encontramos o paraíso do outro lado. O contraste é importante…
Encontramos pessoas afáveis, que não nos atropelam a cada passo que damos. Tudo
é mais calmo, mais organizado. Claro que, não é por acaso que as condições de
vida aqui são muito melhores que as do país vizinho. Francistown parece uma
cidade europeia. Não vejo crianças descalças de roupa rasgada. O centro
comercial está cheio de gente bem vestida e arranjada e de lojas movimentadas.
Sinto-me aliviada e ao mesmo tempo triste com este contraste.
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