sábado, 7 de dezembro de 2013

A caminho do Botswana.

Comprometemo-nos com o Frontline Institute em participar na acção “Tree Planting” que decorrerá no período do Natal. Estava inicialmente previsto partir para o Botswana no dia imediatamente a seguir à nossa chegada ao Zimbabwe (na realidade, só não voámos directamente para Gaborone, Bots porque os preços dos voos eram elevadíssimos). No entanto, problemas com vistos atrapalharam os nossos planos e só no dia 6 pudemos viajar.
Desde que chegámos a Zimb, temos vivido num ambiente protegido e mais que amigável dentro da escola. O impacto quando nos encontrámos sozinhos em Harare foi, para mim, bastante forte. As pessoas atropelam-se para chegar a nós e vender o que têm para vender, seja comida, bebida, transporte ou dinheiro… Senti agressividade na forma como nos olham, como nos abordam… Senti algum medo.
Depois do motorista da Humana nos deixar em frente à embaixada do Malawi, que resultou estar fechada, apanhámos um combi (carrinhas utilizadas como táxis, onde cabe sempre mais um, pelo que vamos como sardinhas em lata) e caminhámos perdidos pelo centro. Três brancos e uma mulata, carregados com mochilas enormes não passam despercebidos. Enquanto A. nos dizia “não façam ar de turistas” nós ríamos com os nervos e fomos abordados por comerciantes, taxistas e sei lá mas quem, nem sempre da forma mais agradável.
Quando chegámos à estação de autocarros que o motorista da Humana nos tinha referenciado, apercebemo-nos que o nosso parte de outra estação. Há, literalmente, milhares de pessoas por todo o lado, muitos gesticulam e gritam por nós para entrarmos no seu táxi ou combi. Entramos e pedimos ajuda à rapariga das informações que pergunta pelo nosso guia, que se não temos devemos arranjar um, que não é seguro andarmos sozinhos. Explicamos que não estamos a visitar a cidade, apenas queremos apanhar o transporte para Francistown. Então que apanhemos um táxi e que nos certifiquemos que o taxista é credenciado.
Lá fora o caos! Depois de sermos abordados de uma forma que nem nos dá espaço para pensar, aparece um senhor com um colete onde está escrito “táxi” e decidimos ir com ele. Em conversa diz-nos que conhece a Humana e o Frontline Institute. Leva-nos a um minimercado porque comentámos que queríamos comprar comida, passa connosco no ponto de partida do nosso autocarro (mega confusão) e confirma que este só parte às 18h. Não são ainda 10h da manhã. Então leva-nos a uma estação de serviço, num sítio tranquilo, onde o nosso autocarro está estacionado esperando a hora da partida. Procuramos o motorista, pedimos para deixar as mochilas e sacos dentro do autocarro e sentimo-nos à vontade para entrar e sair da viatura sempre que quisermos. Despedimo-nos de Anton, o taxista que tanto nos ajudou, e ficamos com o seu contacto para quando voltarmos.
Então ali, nesta comunidade de Harare cujo nome desconheço, passámos umas horas mágicas com os miúdos do bairro. Tudo começou com uma bolacha que demos a uma criança, logo
a seguir apareceu mais uma e depois outra e outra… Fomos dar uma volta pelo bairro e elas vieram connosco. No caminho juntaram-se mais miúdos ao grupo. Mostraram-nos o centro de saúde e a escola, apresentada por um deles como “a melhor escola do mundo”. Cantámos, dançámos e trocámos jogos das nossas tão diferentes infâncias, inventámos brincadeiras e rimos muito. Estas horas foram tão especiais que não tenho como pôr em palavras… e acho que esta sensação foi partilhada por todos. Alguns despediram-se com um “I will never forget you” e todos rodearam o autocarro, connosco lá dentro, a cantar a canção que lhes ensinámos. Há forma mais bonita demonstrar afecto?
Saímos da estação de gasolina e parámos na paragem oficial, a caótica. Enquanto esperamos que cheguem mais passageiros somos invadidos por todo o tipo de comerciantes. No autocarro entraram dezenas de pessoas a vender comida, bebida, bolsas e carteiras, carregadores de telemóvel, cartões SIM, dinheiro para câmbio e mais mil e uma coisas. Depois de quase uma hora neste entra e sai, finalmente partimos para Francistown. O autocarro era bastante velho e enorme. Levava muito mais gente do que a sua capacidade. As pessoas sentavam-se no chão, amontoadas até quase em cima do motorista.
Alta madrugada e paramos no meio da estrada, ou melhor, no meio do mato por uma avaria do autocarro. O condutor e ajudantes (não percebi se funcionários do autocarro) mandam sair as pessoas sentadas no chão para abrir o motor. Parte do chão é, na verdade, a porta que dá acesso ao motor. Depois de algumas tentativas falhadas, voltam a fechar o motor, as pessoas voltam para dentro. Estivemos cerca de duas horas esperando, mas ninguém sabia o quê. Pára à nossa frente um autocarro igual ao nosso e as pessoas começam a falar em Shona, a levantar-se do chão e a correr para a rua. Nós os quatro não percebíamos nada… Vamos trocar de autocarro? Só então percebemos que o autocarro nos trazia gasóleo e óleo, e que afinal continuamos no mesmo, que conseguiu funcionar até à vila mais próxima para parar de vez.
Mais caos! Fila para a devolução do dinheiro correspondente ao trajecto em falta. Juntamo-nos em grupos e procuramos um táxi que nos leva à cidade mais próxima, onde queremos apanhar um “bus” (que não passa de uma carrinha um pouco maior que um combi) em direcção à fronteira. Mal o táxi nos larga na paragem do bus, discussão brutal entre os condutores! Queremos ir no bus e não num combi, mas o pessoal dos combis barra-nos a passagem. Um de nós consegue transpor a barreira e chegar ao bus, mas entretanto o motorista do bus arranca furioso connosco cá fora e uma mochila lá dentro. Gritos por todo o lado, eu sem perceber nada… Entretanto o bus para numa esquina e nós corremos para o apanhar. Ufff!!
Chegámos à fronteira, cruzámos sem problemas e encontramos o paraíso do outro lado. O contraste é importante… Encontramos pessoas afáveis, que não nos atropelam a cada passo que damos. Tudo é mais calmo, mais organizado. Claro que, não é por acaso que as condições de vida aqui são muito melhores que as do país vizinho. Francistown parece uma cidade europeia. Não vejo crianças descalças de roupa rasgada. O centro comercial está cheio de gente bem vestida e arranjada e de lojas movimentadas. Sinto-me aliviada e ao mesmo tempo triste com este contraste.

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